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Questão 03:

Encarar a avaliação como um ato de investigar e intervir não significa aumento de trabalho no cotidiano docente, e isso não gera uma barreira no professor?

(Questão formulada no 4º Seminário de Educação Profissional do SENAC de Goiás, Goiânia, 28 de novembro de 2005)

 

Resposta:

Cipriano Carlos Luckesi

O ato de avaliar é mais exigente que o ato de examinar tanto para o professor como para o estudante. O ato de examinar, do ponto de vista do professor, exige somente a elaboração, aplicação, correção de provas, atribuição de notas e registro dos dados; já do ponto de vista do estudante exige responder as provas e aguardar os resultados.

O ato de avaliar, por outro lado, exige do professor: elaborar instrumentos adequados (ou seja, de qualidade satisfatória) do ponto de vista da investigação do desempenho do estudante; correção, reorientação dos estudantes se necessária, re-avaliação. E, do lado do estudante, exige dele estudo, dedicação, investimento, aprofundamento, busca dos melhores resultados.

Assim sendo o ato de avaliar é muito mais exigente que o ato de examinar, pois que o primeiro exige qualidade de aprendizagem para o maior número de estudantes senão de todos, o que implica em maior exigência tanto para o professor como para o estudante. Não basta o "qualquer resultado está bem", mas sim importa o melhor resultado possível, o que implica em buscar qualidade na prática educativa, o que, por sua vez, significa investimento na busca de resultados satisfatórios.

Assim sendo, do ponto de vista pedagógico e da qualidade dos resultados, o ato de avaliar é mais exigente que o ato de examinar. É possível que essa exigência traga alguma resistência do professor em transitar do ato de examinar para o de avaliar. Contudo, as resistências mais consistentes provêem de outros fatores: (1) psicologicamente, do foto do professor, quando era estudante, ter sido submetido a inúmeros atos examinativos; agora, no lugar de educador, ele repete automaticamente esses atos; (2) historicamente, somos herdeiros de uma longa história de exames, da forma como ela é praticada na escola hoje, cujas primeiras sistematizações se deram no século XVI, com o nascimento da idade moderna. Exames existiam antes, mas esse tipo de exame escolar, que vivenciamos em nossas escolas hoje, foi sistematizado no decorrer do século XVI; (3) o modelo de sociedade no qual vivemos. A sociedade burguesa é excludente, os exames também o são. Os exames reproduzem o modelo de sociedade. Atuar pedagogicamente com a avaliação é atuar de forma includente, o que significa reagir ao modo burguês de ser. E isso dá muito trabalho. Para tanto, necessitamos de transformar nossas crenças e conceitos sobre o estudante e sobre nossa relação educativa com ele.

 

 

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