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Resposta:
Cipriano Carlos Luckesi
Fico a pensar se a "cola" tem a ver com negligência
do estudante. Pode até ter a ver com isso, mas não
só e muito mais. Acredito que a pergunta se refere
à possível negligência do estudante em
relação aa apropriação dos conteúdos
que deveriam ser estudados e aprendidos e não o foram..
Pessoalmente, sou mais tentado a acreditar que a "cola"
tem a ver com o todo do contexto escolar: sua história,
seu modo de ser e de comportar-se. O modelo de escola que
conhecemos hoje constituiu-se ao mesmo tempo em que a modernidade
se constituiu. Nesse contexto, fazem-se presentes dois fatores.
De um lado, o modelo burguês de sociedade, que, conforme
os estudos de Karl Marx, tem seu fundamento no subterfúgio.
A "mais valia" nada mais é do que o subterfúgio
sobre o qual se assenta o crescimento do capital na sociedade
burguesa, fator constitutivo desse modelo de sociedade. Na
sua base econômica está inscrita a necessidade,
para o crescimento do capital, da "mais valia",
que expressa o fato de que o proprietário dos meios
de produção paga uma parte da força de
trabalho do trabalhador e a outra parte ele incorpora aos
seus bens como capital.
O dinheiro que cada um de nós individualmente carrega
na nossa carteira de cédulas é um bem de uso,
que permite trocas para o nosso consumo pessoal, mas o dinheiro
dentro de uma empresa na sociedade capitalista é um
bem de troca, o que significa que ele tem que gerar lucros.
Parta tanto, não basta que os bens investidos somente
produzam outros bens de igual valor. Assim sendo, de onde
viria o enriquecimento do capital? Para Marx do trabalho "não-pago".
Aparentemente, na sociedade capitalista, todo trabalho é
pago, mas na verdade uma parte dele não é paga,
o que gera o lucro. Seja na "mais valia absoluta",
caracterizada pelas horas de trabalho não pagas, ou
pela "mais valia relativa", que se assenta sobre
a produção maior de capital decorrente da especialização
profissional.l O subterfúgio está nessa mecânica
de anunciar que tudo é pago, quando, de fato, nem tudo
é pago. Nós nos "acostumamos" a esse
modo de ser; e, inconscientemente, de modo automático,
dirigimos nossa vida por esse processo. Mutatis mutantis,
a cola também parece ser um subterfúgio justificável:
"se o professor não vê, minhas respostas,
mesmo que coladas, elas me darão um resultado satisfatório".
Por outro lado, no processo da cola escolar, também
estão presentes os processos psicológicos do
estudante, assim como estão presentes elementos da
dinâmica escolar. Nem sempre o professor produz bons
e adequados instrumentos para coletar dados essenciais sobre
a aprendizagem do educando. Por vezes, a prática do
"pegar o estudante pelo pé" está presente
nas práticas avaliativas escolares, o que conduz a
produção de instrumentos de coleta de dados
para a avaliação que se transformam em martírio
para os estudantes. Então, nesse caso, a cola representa
a reação ostensiva do estudante ao modo ostensivo
de ser do professor. A todo ato de ataque corresponde um ato
de defesa.
Por último, é óbvio que, como em qualquer
outra área onde atue o ser humano, a cola pode decorrer
simplesmente da negligência do estudante em não
estudar ou da possibilidade de "levar vantagem"
sempre. Isso é possível? Claro que sim; não
vamos fechar os olhos, não é?(lei do Gerson).
Em síntese, considero que a "cola na prática
escolar" não pode ser tratada com simplicidade.
Suas implicações políticas, sociológicas
e psicológicas exigem de nós um razoável
cuidado naquilo que afirmamos.
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