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Questão 05:

"Quem não cola não sai da escola"... é uma cultura forte do estudante. O que fazer com a negligência dos estudantes?

(Questão formulada no 4º Seminário de Educação Profissional do SENAC de Goiás, Goiânia, 28 de novembro de 2005)

 

Resposta:

Cipriano Carlos Luckesi

Fico a pensar se a "cola" tem a ver com negligência do estudante. Pode até ter a ver com isso, mas não só e muito mais. Acredito que a pergunta se refere à possível negligência do estudante em relação aa apropriação dos conteúdos que deveriam ser estudados e aprendidos e não o foram..

Pessoalmente, sou mais tentado a acreditar que a "cola" tem a ver com o todo do contexto escolar: sua história, seu modo de ser e de comportar-se. O modelo de escola que conhecemos hoje constituiu-se ao mesmo tempo em que a modernidade se constituiu. Nesse contexto, fazem-se presentes dois fatores.

De um lado, o modelo burguês de sociedade, que, conforme os estudos de Karl Marx, tem seu fundamento no subterfúgio. A "mais valia" nada mais é do que o subterfúgio sobre o qual se assenta o crescimento do capital na sociedade burguesa, fator constitutivo desse modelo de sociedade. Na sua base econômica está inscrita a necessidade, para o crescimento do capital, da "mais valia", que expressa o fato de que o proprietário dos meios de produção paga uma parte da força de trabalho do trabalhador e a outra parte ele incorpora aos seus bens como capital.

O dinheiro que cada um de nós individualmente carrega na nossa carteira de cédulas é um bem de uso, que permite trocas para o nosso consumo pessoal, mas o dinheiro dentro de uma empresa na sociedade capitalista é um bem de troca, o que significa que ele tem que gerar lucros. Parta tanto, não basta que os bens investidos somente produzam outros bens de igual valor. Assim sendo, de onde viria o enriquecimento do capital? Para Marx do trabalho "não-pago". Aparentemente, na sociedade capitalista, todo trabalho é pago, mas na verdade uma parte dele não é paga, o que gera o lucro. Seja na "mais valia absoluta", caracterizada pelas horas de trabalho não pagas, ou pela "mais valia relativa", que se assenta sobre a produção maior de capital decorrente da especialização profissional.l O subterfúgio está nessa mecânica de anunciar que tudo é pago, quando, de fato, nem tudo é pago. Nós nos "acostumamos" a esse modo de ser; e, inconscientemente, de modo automático, dirigimos nossa vida por esse processo. Mutatis mutantis, a cola também parece ser um subterfúgio justificável: "se o professor não vê, minhas respostas, mesmo que coladas, elas me darão um resultado satisfatório".

Por outro lado, no processo da cola escolar, também estão presentes os processos psicológicos do estudante, assim como estão presentes elementos da dinâmica escolar. Nem sempre o professor produz bons e adequados instrumentos para coletar dados essenciais sobre a aprendizagem do educando. Por vezes, a prática do "pegar o estudante pelo pé" está presente nas práticas avaliativas escolares, o que conduz a produção de instrumentos de coleta de dados para a avaliação que se transformam em martírio para os estudantes. Então, nesse caso, a cola representa a reação ostensiva do estudante ao modo ostensivo de ser do professor. A todo ato de ataque corresponde um ato de defesa.

Por último, é óbvio que, como em qualquer outra área onde atue o ser humano, a cola pode decorrer simplesmente da negligência do estudante em não estudar ou da possibilidade de "levar vantagem" sempre. Isso é possível? Claro que sim; não vamos fechar os olhos, não é?(lei do Gerson).

Em síntese, considero que a "cola na prática escolar" não pode ser tratada com simplicidade. Suas implicações políticas, sociológicas e psicológicas exigem de nós um razoável cuidado naquilo que afirmamos.

 

 

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