|
Resposta:
Cipriano Carlos Luckesi
Na questão 01 desta página do site, teci comentários
sobre a questão do registro dos resultados. Peço
ao leitor que retome essa leitura. Contudo, a questão
acima colocada me permite fazer um outro comentário,
não propriamente sobre conceitos e símbolos
de registro, mas sim sobre "critérios para a prática
da avaliação".
Não existe a possibilidade de praticar atos de avaliação
sem o estabelecimento prévio de critérios. Aliás,
não existe mesmo a possibilidade de ensinar alguma
coisa, se não temos critérios que configurem
o quê e como vamos ensinar, o que, por sua vez, vai
determinar o quê e como vamos avaliar.
Os critérios da prática da avaliação
seguirão os critérios da proposta e da prática
de ensino. Se a teoria pedagógica que dirige nosso
modo de ensinar nos diz que o importante é que a criança
tenha "de memória" determinados conteúdos
transmitidos, a avaliação seguirá esse
mesmo critério. Se teoricamente, temos como critério
que estudar matemática é alguma coisa difícil,
vamos ensinar matemática dessa forma e vamos proceder
a avaliação com esse mesmo critério,
com essa mesma crença..
Vou colocar aqui um exemplo de uma questão de uma
prova, que a ajuda a compreender o que estou dizendo. Num
teste apareceu a seguinte questão: "Qual é
o número que é menor que duzentos e múltiplo
de 4 e 6?". Vale observar que o critério que está
por traz dessa questão é saber se o estudante
aprendeu a identificar "um número que seja múltiplo
comum a dois números". De fato o que interessa
ao professor é saber se o estudante aprendeu o que
é "múltiplo comum a dois números".
Nada mais que isso. No entanto, na questão acima, ele
propôs uma dificuldade a mais na compreensão
do que está pedindo. A primeira parte da questão
--- "qual é o número que é menor
que duzentos" --- é absolutamente desnecessária
para verificar se o estudante aprendeu "múltiplo
comum". Essa parte da questão somente serve para
confundir a compreensão do estudante e, conseqüentemente,
conduzi-lo a uma resposta inadequada. Uma resposta errada
à questão, como está formulada, não
significa que o estudante não saiba "múltiplo
comum", mas sim que ele não compreendeu o que
o professor pediu. A questão tem dentro de si uma dubiedade:
O que é que o professor quer saber? São duas
informações. Qual delas interessa ao professor?
Se estudante sabe "o número que é menor
que duzentos" (efetivamente todos os números abaixo
de duzentos são menores do que ele) ou se ele sabe
"múltiplo de dois números" (que podem
ser outros que não esse único indicado na questão).
Então, nessa questão, estão presentes
dois critérios diferentes: (1) "saber se o estudante
aprendeu múltiplo comum" (Com esse critério
o professor tem como base teórica que a matemática
é uma outra linguagem para dizer as coisas quantitativamente
e ela não é difícil. É direta.);
(2) "saber se o estudante é capaz de compreender
uma formulação complicada para responder a uma
questão que é simples" (A crença
que, aqui, está por detrás da conduta do professor
é de que a matemática é difícil
e nenhum estudante aprende-a muito bem, por isso, sempre manifesta
um desempenho inadequado. A formulação da questão
traduz sua crença, seu critério.)
Em síntese critério é o foco teórico
que organiza o ensino e direciona a avaliação
da aprendizagem, ou seja, aquilo que consideramos como importante
no ensino e na aprendizagem. A definição desses
critérios tem a ver com a teoria pedagógica
que seguimos, com o projeto pedagógico que temos, com
o currículo escolar que seguimos, assim como com o
nosso planejamento pessoal de ensino. Em última instância
com o entendimento que temos sobre o que é importante
ensinar e aprender em relação ao estudante com
o qual trabalhamos.
|