Site Oficial do Professor Cipriano Carlos Luckesi
 
         
   
 
 
 
 
 


 

Questão 09:

Existe alguma justificativa pedagógica para o recurso da reprovação?

 

Resposta:

Cipriano Carlos Luckesi

Do ponto de vista pedagógico, de fato, não existe nenhuma razão cabível para a reprovação. Ela é um fenômeno que, historicamente, tem a ver com a ideologia de que, se o estudante não aprende, isso se dá exclusivamente por responsabilidade dele, ou, mais que isso, por descuidado ou má vontade dele. As frases que revelam isso são; "os estudantes não querem mais nada"; "eles não estudam"; "não têm interesse", etc. Existem muitos outros fatores na prática pedagógica, além do educando, que devem ser levados em consideração, caso tenhamos como meta a plena aprendizagem. Muitas outras razões podem conduzir ao fracasso escolar, sem que seja diretamente responsabilidade do estudante. A exemplo, podemos lembrar as políticas públicas voltadas para a educação, que incluem os baixos salários para os educadores em geral, os espaços físicos insatisfatórios onde as atividades pedagógicas são realizadas, a carência de bibliotecas nas escolas, a formação insatisfatória dos educadores, investimento insatisfatório dos educadores tendo em vista a efetiva aprendizagem dos educandos, etc. A reprovação não existe em sistemas escolares que efetivamente investem na qualidade do ensino e da aprendizagem. Veja-se o exemplo, hoje, bastante divulgado no Brasil, da chamada "Escola da Ponte", em Portugal. O objetivo da escola é a aprendizagem do educando e o seu conseqüente desenvolvimento e investem nisso, através de atividades didáticas, avaliação e reorientação. Também entre nós existem experiências educativas, onde a reprovação é uma palavra que já foi riscada do dicionário, em função do investimento na qualidade do ensino. Assim seno, a reprovação, por si, não faz sentido em nenhuma prática educativa, desde que o objetivo seja a aprendizagem e o desenvolvimento do educando. Se a meta é essa, não faz sentido abortá-la pela reprovação. Aliás, importa observar que os atos de ensinar, investindo na aprendizagem, e de reprovar são fenômenos paradoxais, opostos, contrários, contraditórios. A idéia de que a reprovação gera medo no educando e, supostamente, por isso, ele se dedicará ao estudo e aprendizagem não faz sentido numa educação centrada na pessoa do educando. Ele necessita de aprender e desenvolver-se para expressar-se como um ser autônomo e não como um ser submisso. A submissão e o medo não dão sustentação à vida; o que sustenta a vida é a autonomia saudável, que permite a expressão de cada um.

 

 

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